INTERROMPER O CORPO
E ali estava, a "Yellow Mama", a cadeira eléctrica assim chamada porque estava pintada com um amarelo brilhante de autocarro escolar. Era um compartimento que poderia deixar-te suficientemente curioso para o visitares, mas não irias querer morrer ali. Mas muitos morreram e muitos mais, sem dúvida, morrerão. Porque este é um dos compartimentos onde a vontade da sociedade é levada a cabo. É uma sala de execução.
(Lucinda Devlin,
The Omega Suites)
1.
Existem cinco métodos de homicídio legal nos Estados Unidos: enforcamento, cadeira eléctrica, câmara de gás, injecção letal e pelotão de fuzilamento. Entre 1991 e 1998, Lucinda Devlin visitou dezenas de penitenciárias americanas onde se aplica a pena de morte, com o objectivo de fotografar os compartimentos e instrumentos ligados à execução. Daí resultou uma série de 30 fotografias apropriadamente designadas
The Omega Suites.
A obra é um conjunto de imagens assépticas, quase estéreis, das salas de execução ou de testemunhas. A presença humana é nula. O elemento mais pesado de cada composição é essa ausência. A de um corpo interrompido numa cadeira eléctrica ou numa mesa de injecção letal. Cada um dos espaços fotografados é como um cenário de um mesmo teatro. Acontece que o seu único sentido é um único momento. Acontece que fora desse momento de absoluta ruptura aqueles espaços não existem. O que se revela em cada fotografia é uma espacialidade particular e radical e o que se conclui é que esse mecanismo apenas se percebe claramente no vazio.
2.A primeira leitura de
The Omega Suites é uma leitura errada. A primeira palavra é
neutralidade e, claro, é uma palavra falsa. O modo como Devlin representa aqueles espaços é meramente factual, expondo com o mesmo detalhe cada elemento existente no compartimento sob uma luz homogénea. Não há nada de desagradável, nada que nos ligue a uma ideia de morte.
A morte parece ter sido eliminada. Cirurgicamente removida (1). As imagens chegam a ser elegantes, podemos imaginá-las numa revista de moda. Não parece existir qualquer sentido dramático. Mas é precisamente aí que reside o carácter subversivo da obra. Quanto mais velada, maior a subversão.
No ensaio sobre fotografia
Camera Lucida (1980), Roland Barthes identifica a existência de certos elementos –
punctum – que nos atraem irremediavelmente para uma imagem. Se tentarmos identificar o
punctum de cada uma das fotografias de Devlin, chegaremos facilmente a uma conclusão: apesar de toda a neutralidade com que Devlin parece capturar cada compartimento, apesar da não hierarquização dos elementos, esse vórtice é sempre o instrumento de execução, seja a cadeira eléctrica, o cadafalso ou a câmara de gás. É impossível escapar ao conhecimento de que ali houve ou haverá uma morte e que é essa morte o significante do espaço retratado. Não existem objectos puros, há sempre um filtro – neste caso, a nossa resposta perante aquela ausência.
Cada uma das fotografias representa o vazio entre a última e a próxima morte. A peça central – o instrumento de execução – está isolada na sala, todos os elementos parecem estar em ordem, as luzes estão ligadas. A cena está montada. O que nos suga para a cena é o corpo em falta. A palavra é
imobilidade. A palavra é
suspensão. É isso que se lê. O momento em que aquele corpo é interrompido é um ponto de ruptura naquele espaço. O que sobra depois é um tempo, como um resíduo, não será tanto um espaço.
3.
A aplicação da pena capital é um acto ritualizado, conduzido por um protocolo rigoroso e detalhadamente elaborado.
Alguns dias antes de uma execução marcada, o ambiente da prisão transforma-se. Toda a instituição é afectada pela magnitude do que está prestes a acontecer. Há um alto grau de ritualização a dirigir os dias e os procedimentos que levarão ao acontecimento (2). A sociedade está habituada a tratar a morte como um de dois extremos: como um espectáculo ou uma obscenidade intolerável, como um vazio e um silêncio e um falhanço. Uma sala de execução é um paradoxo porque interpreta ambos os papéis. Nesta encenação, a morte é simultaneamente o enredo incontornável e o elemento a eliminar.
Ao captar o vazio daqueles lugares, Devlin confirma o ritual, a eficácia clínica com que permite lidar com a morte, transformando-a em pouco mais do que um assunto de saúde pública.
Apenas o ritual de uma execução torna possível que ela perdure (3). Os espaços que Devlin fotografou são essenciais ao ritual e dele vivem. São lugares transitórios que no intervalo entre execuções não existem verdadeiramente. Inúteis, invisíveis, desabitados: tornam-se
não-espaços. Em nenhum outro caso, o corpo é tão determinantemente o centro de um espaço.
The Omega Suites coloca-nos por detrás de uma moldura e esse é literalmente o ponto de vista das testemunhas de cada execução, vendo mas não sendo visto. O vidro duplo que separa a sala de execução da sala das testemunhas é o elemento que marca em definitivo a função de cada um dos espaços. Essa fina membrana potencia o gesto obsceno de transformação de uma morte num acto de
voyeurismo: tanto os espectadores, através da transparência do vidro, como o condenado, através do reflexo do espelho, assistem aos momentos que antecedem a execução, antes da morte transformar o condenado num objecto. Todos os olhares se concentram naquele corpo como único lugar possível.
4.O espaço mais reservado e protegido é a sala da assistência mas o acto mais íntimo desenrola-se na sala de execução. O acto mais íntimo é, no entanto, também o mais público, com todos os movimentos a serem impiedosamente expostos. Qualquer noção possível de interioridade ou intimidade aparece aqui baralhada. Cada espaço funciona como uma célula, cada uma com uma função precisa num processo que se desenrola numa relação desigual de poder.
Todo o espaço está desenhado segundo essa relação, sempre à volta da manipulação e dominação de um corpo, inserindo-se no que se pode designar de
violência programática (4) (aquela que é provocada propositadamente através do programa arquitectónico). No
Panopticon, uma estrutura prisional radial concebida por Jeremy Bentham no século XVIII, os prisioneiros estavam permanentemente visíveis para os guardas, por sua vez invisíveis para os prisioneiros a partir de uma torre central. Os reclusos tornavam-se assim prisioneiros de si mesmos, dos seus temores, do seu desconforto. A máquina psicológica de Bentham assentava nesse princípio simples e verdadeiramente eficaz: o poder deve ser
visível e não verificável (5).
A sala de execução funciona como um pequeno teatro em que um actor se expõe ao
voyeur que se esconde por detrás do espelho. O espaço que antecede a morte não é produzido pelos elementos construtivos, pelas paredes, pelos materiais, mas pelas relações de poder entre opressor e oprimido, bastando para isso o olhar. A figura do
voyeur que aqui aparece é sinistra porque pressupõe a desconfortável vantagem de alguém que observa sem ser observado. A opressão exercida sobre o recluso é permanente. Não pode nunca confirmar a existência das testemunhas. A suspeita torna-se mais forte do que a realidade.
5.
Todas as fotografias de Devlin são diferentes mas todas têm o mesmo sentido. Foram tiradas em 20 estados e todas representam um lugar específico mas o carácter de cada um desses espaços é abstracto.
Podiam estar em qualquer lugar; podiam existir todos num só edifício; podiam não existir sequer (6). Todos estes espaços são moldados em função de um único corpo num momento preciso. Aquele espaço é esse momento. Até que o corpo, impossível de ignorar, se ausente. Essa ausência redefine tudo. Definitivamente. Nada pesa mais que um vazio.
1. Miglietti, Francesca Alfano – Extreme Bodies, Skira (2003)
2. Devlin, Lucinda – The Omega Suites, Steidl (2000)
3. Eshelman, Byron – Death Row Chaplain, citado por Lucinda Devlin, ib.
4. Tschumi, Bernard – Architecture And Disjunction, The MIT Press (1996)
5. Foucault, Michel – Panopticism (extract) in Leach, Neil (ed.) – Rethinking Architecture, Routledge (1997)
6. Mullins, Charlotte – Death Row in Contemporary, issue 36 (2001)[publicado em "
Terminal: Em Fractura", Plano 21 (2005)]