XXX: DE SADE A LA FURA DELS BAUS
XXX. O nome é explícito. O espectáculo era para maiores de 18 e o sexo era a personagem principal. XXX é a reunião de dois universos separados por dois séculos mas unidos pela provocação, pelo desejo de corrupção dos valores instituídos. XXX é a adaptação livre, para os dias de hoje, de A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade pelo colectivo catalão La Fura dels Baus. A obra do aristocrata francês permanece polémica. Os Fura não quiseram defraudar as expectativas e conceberam um espectáculo que vive nos limites.
XXX tem uma linguagem furera, o que significa o recurso a uma vasta gama de recursos cénicos que incluem música, movimento, uso de materiais industriais, aplicação de novas tecnologias e a implicação directa do espectador no espectáculo, ainda que os Fura incorporem alguns elementos pouco habituais, como os diálogos.
Tal como no livro, escrito em 1795, XXX segue o trajecto da jovem e inocente Eugénie na sua iniciação sexual por um grupo de libertinos, dirigidos por Madame Lula, agora transformada em porno star retirada. Mulher sensual e manipuladora, é acompanhada por Dolmancé, personagem parecida com o próprio Sade, engenhoso, cruel e narcisista, e por Giovanni, irmão de Madame Lula, com quem mantém relações incestuosas. A partir deste grupo de personagens, os La Fura des Baus fazem embarcar o espectador numa experiência que atravessa a perversão e a loucura.
O cenário de XXX é basicamente uma alcova e um ecrã gigante, onde se projectam constantemente imagens pornográficas que se misturam com as cenas em palco e que as imitam, iludindo o espectador, que julga estar a ver pornografia ao vivo. No espectáculo convivem actores reais, que pisam o palco, e actores virtuais, que actuam em directo, pela internet a partir de Barcelona. Confunde-se o real com o virtual, o gravado com o instantâneo. É o evoluir do Teatro Digital, o conceito explorado pelos Fura, em que fazem uso de todas as novas tecnologias ao seu dispor. Todos os meios são bons para fazer tremer as consciências.
Se o erotismo está sempre entre nós, os Fura resolveram torná-lo explícito. Mas XXX não procura dar respostas. Como em qualquer obra dos catalães, o que interessa verdadeiramente são as questões com que se confronta o espectador. Que não tem descanso, sendo atingido constantemente com estímulos que lhe exigem reacção. XXX pretende intervir individualmente nas consciências, confrontá-las com a realidade de uma sociedade onde ainda há espaços para o tabu.
Em Março deste ano, conversei com Valentina Carrasco, elemento de La Fura dels Baus e co-responsável pela direcção e dramaturgia de XXX, sobre o espectáculo, exibido por essa altura em Portugal.
Se o conceito de fura tem a ver com a parte obscura dentro de nós, pode dizer-se que XXX é a obra mais furera de La Fura dels Baus? A que toca no que temos de mais instintivo, de mais incontrolável?
Não sei se será a mais furera, porque a linguagem não é a típica de La Fura dels Baus. Contém elementos atípicos, como os diálogos. Mas o conteúdo mantém as intenções. O impacto através de emoções muito primárias. A exploração do obscuro. XXX questiona o espectador acerca da sua própria sexualidade. Questiona as normas sociais, a hipocrisia latente da sociedade. É uma pergunta a todos. Não se procura atingir apenas o grupo, mas o indivíduo. O espectador deseja mas não se atreve.
Onde está o erotismo e onde está a pornografia em XXX? Onde está a diferença?
Há uma diferença como conceito. Jogamos essencialmente com o que está presente em Sade. Sade incita à simulação sexual do prazer, o que leva as pessoas a pensar em Sade como um escritor erótico, mas ele não o é verdadeiramente. A sua obra recorre a elementos eróticos, sim, mas como um meio, não como uma finalidade. O que mais conservamos de Sade é esse confronto com as normas através de um erotismo forte, da sensualidade, do prazer táctil. Há cenas que não existem na obra, da mesma maneira que só utilizámos algumas cenas da Filosofia na Alcova. De qualquer modo, é tudo simulado, ainda que muito realista. No vídeo projectado assistem-se, de facto, a relações sexuais reais, o que confunde o espectador, que pensa vê-lo em palco. Até porque há, por vezes uma grande semelhança entre o que se passa em palco e no ecrã. São momentos de confusão, muito ambíguos, com aspectos muito realistas. De certo modo, no palco temos o erótico. No ecrã, o pornográfico.
Em XXX o espectador é um voyeur ou um actor? Que esperam dele?
Não gostamos muito da ideia de voyeur. É uma atitude passiva. O espectador é um voyeur mas pede-se que actue. Trata-se de mostrar que a sua passividade não é uma opção. É-lhe exigida uma reacção. De certo modo, ele está a assistir ao que não devia, como um castigo. É como se disséssemos ao espectador: Gostas de observar, não é? Mas o que fazes? Gostavas de experimentar? O espectáculo é uma pergunta constante que exige uma resposta. Sem tréguas.
XXX é uma provocação ou meramente um confrontação do espectador com a realidade?
Queremos confrontar o espectador. Mas não é uma questão de lhe impor uma realidade. Nós não somos nada, não podemos fazê-lo. Mas mostramos-lhe uma realidade, a nossa. E aí, o que dizemos é que pensa-se que somos uma sociedade muito aberta, liberta de preconceitos, em que o sexo já não é um tabu, quando a verdade é que é uma palavra que ainda incomoda. E muito. O que significa que ainda há algo a dizer. Podemos, por isso, ver XXX como uma provocação, mas ela é uma consequência, não é uma finalidade. E, de qualquer modo, não somos os primeiros a fazê-lo. No fundo, limitamo-nos a confrontar o espectador com a realidade da sexualidade actual, que ainda é rodeada de muita hipocrisia.
A violência é essencial para abrir os olhos do espectador?
Não sei, talvez. Mas é concerteza um meio seguro de fazê-lo. Funciona. O ir directo ao alvo, o atirar em pontos muito básicos. Muitas vezes a La Fura dels Baus joga com emoções muito fortes, elementares, como o medo. Os actores contra o público. Sempre a disparar. O espectador é confrontado com solicitações constantes aos seus sentidos, desconhecendo muitas vezes a sua proveniência. Sem estar preparado para lidar com isso, pode ouvir gritos, sem saber de onde vêm. É uma violência a nível das emoções. É um alerta permanente. Mas no fundo, o espectador está seguro, sentado na plateia, enquanto os actores estão no palco. É apenas um meio de despertar os espectadores do mundo demasiado cómodo em que vivemos. Andamos anestesiados, demasiado informados, demasiado seguros. E isto é um golpe de alerta, para sacar o espectador da letargia. Em parte, funciona. Muita gente não gosta porque é muito forte. E dizem-no com emoção. E tanta fúria, tanta agressividade, é bom sinal. Se não gostares mas falares desse modo é sinal de que tocámos no ponto certo. Arrancámos reacções. Esse choque violento compensa. Aliás, Sade tenta demonstrar que a violência está em todo o lado, é uma parte básica do homem. Tentamos ocultá-la, mas está lá.
Como conceberam a cenografia de XXX? Qual o seu papel na criação do espectáculo?
Quisemos fazer um cenário que caracterizasse todo este ambiente, baseado em Sade. Na obra, a acção passa-se num boudoir. E de acordo com isso, quisemos criar um universo íntimo, privado, dando, por um lado, a sensação de um local onde o público nunca entra. Por outro lado, há a ideia constante da pornografia, e daí a projecção de filmes pornográficos, tal como a introdução de certos elementos, como a cama vermelha, presente em muitas cenas, mesmo quando mudam os actores. Há a sensação de se estar a ser permanentemente filmado por uma câmara, o que também advém da interacção com o ecrã, que dá a sensação enganadora de que o que ali se projecta é o que se passa em cima do palco. Existem ainda elementos típicos de La Fura dels Baus, como as máquinas e toda essa tecnologia.
Com o Teatro Digital cria-se uma nova temporalidade (onde se misturam o instantâneo e o gravado) e um novo espaço?
Sim, de certo modo. La Fura dels Baus investiga sempre as questões tecnológicas. Com o Teatro Digital podes estar em muitos sítios ao mesmo tempo. Podes estar a ver raparigas a despirem-se num clube nocturno através da internet. Podes ligar-te desde Barcelona com alguém que está em Lisboa. Podes estar na Austrália de manhã enquanto assistes a uma cena nocturna na Europa. E tudo está a acontecer naquele preciso momento, seja no ecrã do computador ou no do palco. Sem que quem está a ser filmado esteja realmente lá. Podemos ter a presença constante de um actor onde quer que esteja. Todo o lugar e nenhum sítio.
Nunca o corpo foi tão protagonista duma obra furera como em XXX, mas ao mesmo tempo, com o Teatro Digital, os corpos reais em palco são muitas vezes suplantados por corpos virtuais dos ecrãs. Não é uma contradição?
Bem, em parte é. Mas se é, é porque é uma contradição da época. Estamos numa época em que a sensualidade é um produto. A pornografia é um entretenimento que se baseia nessa virtualidade. O que se consome nas revistas, na internet, na televisão ou no cinema são corpos virtuais. Na sua máxima expressão. Não são mais do que isso. E, no fundo, fora dos ecrãs também encontramos corpos virtuais. Os arquétipos... No fundo, as raparigas querem ter corpos virtuais. Querem ter um corpo que se encaixe num determinado arquétipo de beleza ditado pela moda. Querem ser iguais àquela modelo ou actriz. E podem fazê-lo. O meu corpo é transformável. Basta ver as actrizes pornográficas – de carne têm muito pouco, o resto é plástico. O corpo de hoje tem muito de virtual.
Qual é a importância da música em XXX?
A música é muito importante em XXX. A partir do nosso coordenador musical, Miki Espuma, elaborou-se um projecto onde se tentou incluir o melhor da música alternativa espanhola. Cada grupo escreveu um tema para o espectáculo, o que resultou numa música totalmente colectiva mas, ao mesmo tempo, muito variada e personalizada. Acaba por ser um complemento do vídeo, tornando-o mais realista, criando intimidade, criando momentos. A música acompanha o momento como elemento coreográfico. Tudo isto resulta numa atmosfera propícia ao erotismo. Ou à pornografia como coisa que se mostra. A música ajuda a transformar o espectáculo num night-show, dando claramente a sensação de ser algo feito para ser visto por um espectador.
Tal como uma obra de Sade, XXX é quase um tratado de manipulação do espectador. É um jogo constante com os seus sentidos e sentimentos...
Não diria tanto manipulação... É verdade que XXX coloca o espectador numa posição desconfortável, mas, no fundo, ele está muito defendido. Não é muito manipulado. Mais do que manipulá-lo, tentamos corrompê-lo. É esse o verdadeiro desafio. XXX é uma representação teatral de toda a vida, é uma ficção que é uma chamada para que nos revelemos.
Sade disse: Gostaria de poder achar um crime que tivesse repercussões infindáveis, mesmo quando eu tivesse deixado de agir. De tal modo que não existisse um único momento da minha vida, mesmo quando estivesse a dormir, sem que eu não fosse a causa de algum tipo de desordem. E gostaria de expandir essa desordem a ponto que acarretasse uma geral corrupção ou uma perturbação tão patente que, mesmo para além das minhas ilusões, os efeitos permaneceriam. Este desejo de Sade é também o desejo de La Fura dels Baus?
Somos mais modestos... (risos) Sade era um grande batalhador contra a moral da sua época. Tratava-se de romper com a moral do século XVIII, muito marcado por um cristianismo fervoroso. E Sade queria romper com essa ordem, queria criar uma nova ordem. O crime a que Sade se refere é o lutar contra a moral. E interessa fazer permanecer o crime, é necessário corromper. Sade é quase um moralista, mas um moralista ao revés. É um anti-moralista. Tem uma moral perpétua. A nossa realidade é diferente. Não é a mesma. Não há nenhuma comparação com a força que aqueles valores tinham. Não há comparação com a violência que a obra de Sade exercia sobre a sociedade da época. Hoje está tudo muito relativizado. O destruir ad aeternum não é propósito dos Fura. Mas os Fura compartem essa ideia de corromper essa ordem da moral. Saiamos deste lugar, movamo-nos do lugar da moralidade e da segurança.
[texto e entrevista originalmente publicados na NU #9 sob o pseudónimo de Nuno Costa]
XXX. O nome é explícito. O espectáculo era para maiores de 18 e o sexo era a personagem principal. XXX é a reunião de dois universos separados por dois séculos mas unidos pela provocação, pelo desejo de corrupção dos valores instituídos. XXX é a adaptação livre, para os dias de hoje, de A Filosofia na Alcova do Marquês de Sade pelo colectivo catalão La Fura dels Baus. A obra do aristocrata francês permanece polémica. Os Fura não quiseram defraudar as expectativas e conceberam um espectáculo que vive nos limites.
XXX tem uma linguagem furera, o que significa o recurso a uma vasta gama de recursos cénicos que incluem música, movimento, uso de materiais industriais, aplicação de novas tecnologias e a implicação directa do espectador no espectáculo, ainda que os Fura incorporem alguns elementos pouco habituais, como os diálogos.
Tal como no livro, escrito em 1795, XXX segue o trajecto da jovem e inocente Eugénie na sua iniciação sexual por um grupo de libertinos, dirigidos por Madame Lula, agora transformada em porno star retirada. Mulher sensual e manipuladora, é acompanhada por Dolmancé, personagem parecida com o próprio Sade, engenhoso, cruel e narcisista, e por Giovanni, irmão de Madame Lula, com quem mantém relações incestuosas. A partir deste grupo de personagens, os La Fura des Baus fazem embarcar o espectador numa experiência que atravessa a perversão e a loucura.
O cenário de XXX é basicamente uma alcova e um ecrã gigante, onde se projectam constantemente imagens pornográficas que se misturam com as cenas em palco e que as imitam, iludindo o espectador, que julga estar a ver pornografia ao vivo. No espectáculo convivem actores reais, que pisam o palco, e actores virtuais, que actuam em directo, pela internet a partir de Barcelona. Confunde-se o real com o virtual, o gravado com o instantâneo. É o evoluir do Teatro Digital, o conceito explorado pelos Fura, em que fazem uso de todas as novas tecnologias ao seu dispor. Todos os meios são bons para fazer tremer as consciências.
Se o erotismo está sempre entre nós, os Fura resolveram torná-lo explícito. Mas XXX não procura dar respostas. Como em qualquer obra dos catalães, o que interessa verdadeiramente são as questões com que se confronta o espectador. Que não tem descanso, sendo atingido constantemente com estímulos que lhe exigem reacção. XXX pretende intervir individualmente nas consciências, confrontá-las com a realidade de uma sociedade onde ainda há espaços para o tabu.
Em Março deste ano, conversei com Valentina Carrasco, elemento de La Fura dels Baus e co-responsável pela direcção e dramaturgia de XXX, sobre o espectáculo, exibido por essa altura em Portugal.
Se o conceito de fura tem a ver com a parte obscura dentro de nós, pode dizer-se que XXX é a obra mais furera de La Fura dels Baus? A que toca no que temos de mais instintivo, de mais incontrolável?
Não sei se será a mais furera, porque a linguagem não é a típica de La Fura dels Baus. Contém elementos atípicos, como os diálogos. Mas o conteúdo mantém as intenções. O impacto através de emoções muito primárias. A exploração do obscuro. XXX questiona o espectador acerca da sua própria sexualidade. Questiona as normas sociais, a hipocrisia latente da sociedade. É uma pergunta a todos. Não se procura atingir apenas o grupo, mas o indivíduo. O espectador deseja mas não se atreve.
Onde está o erotismo e onde está a pornografia em XXX? Onde está a diferença?
Há uma diferença como conceito. Jogamos essencialmente com o que está presente em Sade. Sade incita à simulação sexual do prazer, o que leva as pessoas a pensar em Sade como um escritor erótico, mas ele não o é verdadeiramente. A sua obra recorre a elementos eróticos, sim, mas como um meio, não como uma finalidade. O que mais conservamos de Sade é esse confronto com as normas através de um erotismo forte, da sensualidade, do prazer táctil. Há cenas que não existem na obra, da mesma maneira que só utilizámos algumas cenas da Filosofia na Alcova. De qualquer modo, é tudo simulado, ainda que muito realista. No vídeo projectado assistem-se, de facto, a relações sexuais reais, o que confunde o espectador, que pensa vê-lo em palco. Até porque há, por vezes uma grande semelhança entre o que se passa em palco e no ecrã. São momentos de confusão, muito ambíguos, com aspectos muito realistas. De certo modo, no palco temos o erótico. No ecrã, o pornográfico.
Em XXX o espectador é um voyeur ou um actor? Que esperam dele?
Não gostamos muito da ideia de voyeur. É uma atitude passiva. O espectador é um voyeur mas pede-se que actue. Trata-se de mostrar que a sua passividade não é uma opção. É-lhe exigida uma reacção. De certo modo, ele está a assistir ao que não devia, como um castigo. É como se disséssemos ao espectador: Gostas de observar, não é? Mas o que fazes? Gostavas de experimentar? O espectáculo é uma pergunta constante que exige uma resposta. Sem tréguas.
XXX é uma provocação ou meramente um confrontação do espectador com a realidade?
Queremos confrontar o espectador. Mas não é uma questão de lhe impor uma realidade. Nós não somos nada, não podemos fazê-lo. Mas mostramos-lhe uma realidade, a nossa. E aí, o que dizemos é que pensa-se que somos uma sociedade muito aberta, liberta de preconceitos, em que o sexo já não é um tabu, quando a verdade é que é uma palavra que ainda incomoda. E muito. O que significa que ainda há algo a dizer. Podemos, por isso, ver XXX como uma provocação, mas ela é uma consequência, não é uma finalidade. E, de qualquer modo, não somos os primeiros a fazê-lo. No fundo, limitamo-nos a confrontar o espectador com a realidade da sexualidade actual, que ainda é rodeada de muita hipocrisia.
A violência é essencial para abrir os olhos do espectador?
Não sei, talvez. Mas é concerteza um meio seguro de fazê-lo. Funciona. O ir directo ao alvo, o atirar em pontos muito básicos. Muitas vezes a La Fura dels Baus joga com emoções muito fortes, elementares, como o medo. Os actores contra o público. Sempre a disparar. O espectador é confrontado com solicitações constantes aos seus sentidos, desconhecendo muitas vezes a sua proveniência. Sem estar preparado para lidar com isso, pode ouvir gritos, sem saber de onde vêm. É uma violência a nível das emoções. É um alerta permanente. Mas no fundo, o espectador está seguro, sentado na plateia, enquanto os actores estão no palco. É apenas um meio de despertar os espectadores do mundo demasiado cómodo em que vivemos. Andamos anestesiados, demasiado informados, demasiado seguros. E isto é um golpe de alerta, para sacar o espectador da letargia. Em parte, funciona. Muita gente não gosta porque é muito forte. E dizem-no com emoção. E tanta fúria, tanta agressividade, é bom sinal. Se não gostares mas falares desse modo é sinal de que tocámos no ponto certo. Arrancámos reacções. Esse choque violento compensa. Aliás, Sade tenta demonstrar que a violência está em todo o lado, é uma parte básica do homem. Tentamos ocultá-la, mas está lá.
Como conceberam a cenografia de XXX? Qual o seu papel na criação do espectáculo?
Quisemos fazer um cenário que caracterizasse todo este ambiente, baseado em Sade. Na obra, a acção passa-se num boudoir. E de acordo com isso, quisemos criar um universo íntimo, privado, dando, por um lado, a sensação de um local onde o público nunca entra. Por outro lado, há a ideia constante da pornografia, e daí a projecção de filmes pornográficos, tal como a introdução de certos elementos, como a cama vermelha, presente em muitas cenas, mesmo quando mudam os actores. Há a sensação de se estar a ser permanentemente filmado por uma câmara, o que também advém da interacção com o ecrã, que dá a sensação enganadora de que o que ali se projecta é o que se passa em cima do palco. Existem ainda elementos típicos de La Fura dels Baus, como as máquinas e toda essa tecnologia.
Com o Teatro Digital cria-se uma nova temporalidade (onde se misturam o instantâneo e o gravado) e um novo espaço?
Sim, de certo modo. La Fura dels Baus investiga sempre as questões tecnológicas. Com o Teatro Digital podes estar em muitos sítios ao mesmo tempo. Podes estar a ver raparigas a despirem-se num clube nocturno através da internet. Podes ligar-te desde Barcelona com alguém que está em Lisboa. Podes estar na Austrália de manhã enquanto assistes a uma cena nocturna na Europa. E tudo está a acontecer naquele preciso momento, seja no ecrã do computador ou no do palco. Sem que quem está a ser filmado esteja realmente lá. Podemos ter a presença constante de um actor onde quer que esteja. Todo o lugar e nenhum sítio.
Nunca o corpo foi tão protagonista duma obra furera como em XXX, mas ao mesmo tempo, com o Teatro Digital, os corpos reais em palco são muitas vezes suplantados por corpos virtuais dos ecrãs. Não é uma contradição?
Bem, em parte é. Mas se é, é porque é uma contradição da época. Estamos numa época em que a sensualidade é um produto. A pornografia é um entretenimento que se baseia nessa virtualidade. O que se consome nas revistas, na internet, na televisão ou no cinema são corpos virtuais. Na sua máxima expressão. Não são mais do que isso. E, no fundo, fora dos ecrãs também encontramos corpos virtuais. Os arquétipos... No fundo, as raparigas querem ter corpos virtuais. Querem ter um corpo que se encaixe num determinado arquétipo de beleza ditado pela moda. Querem ser iguais àquela modelo ou actriz. E podem fazê-lo. O meu corpo é transformável. Basta ver as actrizes pornográficas – de carne têm muito pouco, o resto é plástico. O corpo de hoje tem muito de virtual.
Qual é a importância da música em XXX?
A música é muito importante em XXX. A partir do nosso coordenador musical, Miki Espuma, elaborou-se um projecto onde se tentou incluir o melhor da música alternativa espanhola. Cada grupo escreveu um tema para o espectáculo, o que resultou numa música totalmente colectiva mas, ao mesmo tempo, muito variada e personalizada. Acaba por ser um complemento do vídeo, tornando-o mais realista, criando intimidade, criando momentos. A música acompanha o momento como elemento coreográfico. Tudo isto resulta numa atmosfera propícia ao erotismo. Ou à pornografia como coisa que se mostra. A música ajuda a transformar o espectáculo num night-show, dando claramente a sensação de ser algo feito para ser visto por um espectador.
Tal como uma obra de Sade, XXX é quase um tratado de manipulação do espectador. É um jogo constante com os seus sentidos e sentimentos...
Não diria tanto manipulação... É verdade que XXX coloca o espectador numa posição desconfortável, mas, no fundo, ele está muito defendido. Não é muito manipulado. Mais do que manipulá-lo, tentamos corrompê-lo. É esse o verdadeiro desafio. XXX é uma representação teatral de toda a vida, é uma ficção que é uma chamada para que nos revelemos.
Sade disse: Gostaria de poder achar um crime que tivesse repercussões infindáveis, mesmo quando eu tivesse deixado de agir. De tal modo que não existisse um único momento da minha vida, mesmo quando estivesse a dormir, sem que eu não fosse a causa de algum tipo de desordem. E gostaria de expandir essa desordem a ponto que acarretasse uma geral corrupção ou uma perturbação tão patente que, mesmo para além das minhas ilusões, os efeitos permaneceriam. Este desejo de Sade é também o desejo de La Fura dels Baus?
Somos mais modestos... (risos) Sade era um grande batalhador contra a moral da sua época. Tratava-se de romper com a moral do século XVIII, muito marcado por um cristianismo fervoroso. E Sade queria romper com essa ordem, queria criar uma nova ordem. O crime a que Sade se refere é o lutar contra a moral. E interessa fazer permanecer o crime, é necessário corromper. Sade é quase um moralista, mas um moralista ao revés. É um anti-moralista. Tem uma moral perpétua. A nossa realidade é diferente. Não é a mesma. Não há nenhuma comparação com a força que aqueles valores tinham. Não há comparação com a violência que a obra de Sade exercia sobre a sociedade da época. Hoje está tudo muito relativizado. O destruir ad aeternum não é propósito dos Fura. Mas os Fura compartem essa ideia de corromper essa ordem da moral. Saiamos deste lugar, movamo-nos do lugar da moralidade e da segurança.
[texto e entrevista originalmente publicados na NU #9 sob o pseudónimo de Nuno Costa]


0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home