A FALÁCIA.
Os longos argumentos do Manuel no
Picuinhices contra a revogação do Decreto 73/73 e consequente exclusividade dos arquitectos no acesso à sua profissão, por muito bem estruturados que sejam, são falaciosos. Em parte, parecem-me também argumentos algo inocentes porque partem muitas vezes de um nítido desconhecimento da realidade: as suas noções do que é a arquitectura e do que é um arquitecto (seja na sua formação ou nas suas competências) são tudo menos certeiras.
Como chego (muito) atrasado à discussão, vou fazer uma abordagem geral aos vários argumentos esgrimidos sem a preocupação de os colocar por ordem cronológica e tentando não repetir ninguém.
o nascimento do 73/73
O Manuel, não compreende (apesar de ser óbvio) o que tem a ver o número de arquitectos portugueses em 73 com a criação do decreto. Mas é muito simples: o número era tão reduzido e insuficiente para corresponder às necessidades do país que foi necessário abrir o mercado a outros profissionais que tivessem conhecimentos mínimos na área. Não foi uma questão de livre mercado mas uma necessidade urgente em que se escolheu o mal menor.
O que se criou nas décadas seguintes foi um monopólio do mercado por partes de engenheiros e afins, restando para os arquitectos cerca de 10% dos projectos (os números são reais). Esse monopólio desses outros profissionais foi facilmente construído: existiram sempre em muito maior número, eram mais baratos e souberam jogar com a imagem ignorante e injusta que a maioria dos portugueses têm sobre os arquitectos (a ideia aberrante central é a de que há apenas uma pequena diferença entre um engenheiro e um arquitecto, mas que o primeiro sempre é mais barato e tem menos
manias…)
o direito à arquitectura
Convenhamos que é preciso alguma má vontade para se pensar que quando a Ordem dos Arquitectos fala em Direito à Arquitectura se está a referir em pormenor a artigos da Constituição. Aquilo a que se refere é ao direito que todos temos à qualidade, ao vermos este país inscrito de vez no mundo civilizado. Continuamos a ser o único país em que a arquitectura, o urbanismo, a arte e a cultura em geral são subvalorizadas como conceitos de somenos importância e sem uma política de acção a nível nacional. É o país que temos. É o país que precisamos mudar. Essas mudanças não se operam apenas legalmente. Mas também.
O Manuel fala de uma limitação das liberdades individuais por passar a ser obrigatória a assinatura de um arquitecto num projecto de arquitectura. O problema é que o Manuel pensa o arquitecto como o profissional
mais qualificado, quando a verdade é que é o
único qualificado, por muito que lhe custe entender. A verdade é que no resto da Europa a situação nem se coloca.
O Manuel acha, portanto, que Portugal é o único país por essa Europa fora que não atenta contra a liberdade dos seus cidadãos. Seria realmente um orgulho… Mas onde é que está o atentado às liberdades individuais em atribuir a exclusividade de uma actividade aos únicos profissionais habilitados? Como o Manuel não gosta da comparação com os médicos (porque, pelos vistos, neste país, se não dá para matar vale tudo), compare-se então com os advogados. Passa-lhe pela cabeça a ideia de, num país civilizado, haver pessoas não qualificadas a exercer livremente advocacia só porque, não sendo analfabetos, sabem ler o Código Penal?
No fundo a noção que o Manuel tem do arquitecto resume-se a isto: o arquitecto é um garante de qualidade mas não o único profissional habilitado a fazer arquitectura. O que eu aqui identifico é o clássico desconhecimento do que é realmente um arquitecto, qual a sua formação, qual as suas competências.
O Manuel não consegue convencer-me de que percebe com rigor o que é arquitectura. Porque, em todas as suas intervenções, associa-lhe sempre apenas a estética ou os aspectos mais técnicos e legais da construção. Fica a faltar muito. Fica a faltar demasiado. A arquitectura não é uma questão de jeito, não é uma questão de gosto, não é um somatório de regulamentos. É uma concepção complexa de espaços e ambientes cuja qualidade e eficácia se deve a uma vasta teia de conhecimentos diversos lentamente adquiridos, reflectidos e treinados. Vai valer a pena discorrer aqui um dia destes sobre a simples noção do que é arquitectura…
A arquitectura não é o mero levantar quatro paredes. Para isso os engenheiros teriam competência. Não sendo o caso, devem deixar a actividade nas mãos dos seus profissionais, por mais que lhes doa perder um mercado que, não sendo seu, lhes deu inegáveis proveitos económicos. Porque da sua parte é apenas isso que interessa e não o defender de uma paixão ou de um gosto enorme em projectar.
Em qualquer área, a maioria dos profissionais são medíocres. Poderá não ser uma conclusão simpática, mas é verdadeira. A qualidade nunca é maioritária. Por isso se destaca. A arquitectura não é excepção. Mas a verdade é que, por muito má arquitectura que muitos arquitectos façam, será sempre melhor do que a melhor arquitectura feita por engenheiros e outros profissionais não qualificados. Porque por muito falta de talento que tenha, qualquer arquitecto tem uma formação básica que faz toda a diferença e que escapa inteiramente a outros profissionais.
O problema é que a maioria das pessoas continua a pensar que isto de ser arquitecto é essencialmente uma questão de
jeito. E como este é um país de jeitosos, muitos engenheiros e desenhadores, por dominarem certos códigos e conhecimentos técnicos básicos, acreditam inocentemente que estão automaticamente habilitados a projectar. Só mesmo em Portugal.
O que os engenheiros, por exemplo, têm em comum com os arquitectos são certos conhecimentos construtivos e um domínio dos códigos de representação do projecto, ou seja, ambos sabem ler e desenhar uma planta, um corte, um alçado. Mas isso é muito pouco. E o cruzamento de conhecimentos termina aí. A formação do engenheiro para conceber espaços é zero.
non-sense
A certa altura, o Manuel tem esta afirmação verdadeiramente divertida:
Os membros da Ordem dos Arquitectos [leia-se todos os arquitectos]
querem ter o exclusivo da prática da arquitectura.
Imaginem-se as variantes:
Os membros da Ordem dos Médicos/Advogados querem ter o exclusivo da prática da medicina/advocacia.
Chocante… Humor à parte, as acusações de corporativismo não fazem mesmo qualquer sentido. Porque não se trata de criar um mercado exclusivo para os arquitectos mas devolvê-lo aos únicos profissionais qualificados para intervirem nessa área. Não se coloca sequer uma questão de concorrência desleal, mas de uma invasão indevida de décadas por parte de profissionais sem competência para exercer a actividade. O que sucede actualmente é que é inadmissível em qualquer país civilizado. O corporativismo neste caso não é o dos arquitectos, mas o dos engenheiros que procuram manter a todo custo uma situação terceiro-mundista que financeiramente lhes convém. Uma situação que, nunca é demais lembrar, surgiu como provisória e arrastou-se por três décadas...
a (má) interpretação das palavras
No seu último texto sobre o assunto, o Manuel lisonjeia-me com uma citação. Infelizmente interpreta-a mal e tenta usá-la para comprovar um ponto de vista totalmente errado. Quando cita o meu
post sobre o Muro de Berlim, que qualifico como um gesto arquitectónico (tal como Koolhaas, que cito), tenta com isso provar que até um arquitecto admite que a arquitectura pode ser feita por outros profissionais. A interpretação, para além de um pouco trapalhona, é precipitada e abusiva.
Quando falo de
gesto arquitectónico não estou a falar exactamente de arquitectura no seu sentido mais estrito, do edifício construído, mas num sentido lato, o que é, aliás, normal na Epiderme ou em qualquer abordagem teórica da arquitectura (por alguma razão uma faceta da arquitectura vasta mas desconhecida da opinião pública).
Quando o Manuel anda na rua está a ter um gesto arquitectónico. Está continuamente a alterar o espaço em que se movimenta. Isso não faz de si um arquitecto. Mas pode fazer do seu movimento um fenómeno espacial interessante. Tudo o que tenha a ver com os mecanismos espaciais é importante para um arquitecto. Se ler os meus textos sobre dança perceberá melhor onde quero chegar. Por isso, quando falo do Muro de Berlim, estou a analisá-lo como um fascinante objecto de estudo e não como uma obra de arquitectura no sentido estrito do termo.
Por outro lado, não entendo a obsessão do Manuel com as definições que o dicionário dá de certas palavras ou com a sua etimologia. Ainda está para vir o dicionário que defina com exactidão o que é a arquitectura, o mesmo se aplicando à palavra arte. E o significado exacto das palavras altera-se com o tempo.
conclusão
Para já, fico-me por aqui...