3 ESTILHAÇOS CRAVADOS NO TEU CORPO
Achas que estou interessado em ficar contaminado com esses teus horrores. Não estou nada interessado.
William S. Burroughs, Festim Nu
O corpo humano, primeiro. E a arquitectura, corpo segundo, extensão. Duas possibilidades de corpo, aquele que é nosso e sangra e aquele que construímos para o invadir (e para que nos invada). Os corpos são sempre incompletos. Os corpos têm sempre algo a mais. Os estilhaços que se cravam na carne. Encontro 3 estilhaços desde sempre neles cravados. 3 palavras inatas, 3 instintos básicos. Sexualidade Violência Manipulação. O corpo que desliza pelo espaço, o espaço que se bate contra o corpo, o espaço que domina o corpo.
3 conceitos indissociáveis, primários, viscerais, que se cruzam constantemente, as suas fronteiras ténues, fugidias. Simultaneamente interiores e exteriores ao corpo: depende de onde parte e para onde se dirige a carícia, a agressão, a indução. Se parte de ti ou se dirige para ti. Conceitos demasiado vastos e ambíguos para uma abordagem totalitária. Restam os fragmentos.
O que se questiona é a corporalidade e a mente na arquitectura. Num contexto em tanto se valoriza o virtual, existe a tendência para esquecer a experiência corporal do espaço. Que, no entanto, será sempre seminal. O que se questiona é o mecanismo básico da arquitectura, a sua própria essência: a relação do corpo com o espaço, o modo como o corpo vive a arquitectura e como esta vive através do corpo. (Escreve-se sobre o corpo de modo aparentemente abstracto, mas a verdade é que este corpo também é teu).
Falo do início da arquitectura. Do seu mecanismo básico, correspondente directo das vontades, das fragilidades, dos instintos dos homens. Sexualidade Violência Manipulação não são temas, são a essência frequentemente ignorada da arquitectura, mesmo sendo conceitos gritantemente óbvios.
O modo como se cravam nos corpos sem que os corpos tenham disso consciência, explica a tendência para que Sexualidade Violência Manipulação sejam abordadas isoladamente, como se fossem realidades naturalmente distintas. A verdade (e esta é uma verdade indiscutível) é que são conceitos que, mais do que se tocarem, se atravessam e se confundem. São gestos que se torcem sobre os corpos, provavelmente fragmentos de corpos roubados.
Nesta dimensão maior do corpo surge o espaço. Para perceber o espaço, não como um falso vazio ou uma abstracção burocrática, há que entender o corpo e aquilo que o move. Há que perceber os estilhaços que nele se cravam, rasgando-lhe a pele.
[excerto de 3 Estilhaços Cravados No Teu Corpo, Prova Final de Licenciatura, orientada pelo arquitecto Jorge Figueira]
Achas que estou interessado em ficar contaminado com esses teus horrores. Não estou nada interessado.
William S. Burroughs, Festim Nu
O corpo humano, primeiro. E a arquitectura, corpo segundo, extensão. Duas possibilidades de corpo, aquele que é nosso e sangra e aquele que construímos para o invadir (e para que nos invada). Os corpos são sempre incompletos. Os corpos têm sempre algo a mais. Os estilhaços que se cravam na carne. Encontro 3 estilhaços desde sempre neles cravados. 3 palavras inatas, 3 instintos básicos. Sexualidade Violência Manipulação. O corpo que desliza pelo espaço, o espaço que se bate contra o corpo, o espaço que domina o corpo.
3 conceitos indissociáveis, primários, viscerais, que se cruzam constantemente, as suas fronteiras ténues, fugidias. Simultaneamente interiores e exteriores ao corpo: depende de onde parte e para onde se dirige a carícia, a agressão, a indução. Se parte de ti ou se dirige para ti. Conceitos demasiado vastos e ambíguos para uma abordagem totalitária. Restam os fragmentos.
O que se questiona é a corporalidade e a mente na arquitectura. Num contexto em tanto se valoriza o virtual, existe a tendência para esquecer a experiência corporal do espaço. Que, no entanto, será sempre seminal. O que se questiona é o mecanismo básico da arquitectura, a sua própria essência: a relação do corpo com o espaço, o modo como o corpo vive a arquitectura e como esta vive através do corpo. (Escreve-se sobre o corpo de modo aparentemente abstracto, mas a verdade é que este corpo também é teu).
Falo do início da arquitectura. Do seu mecanismo básico, correspondente directo das vontades, das fragilidades, dos instintos dos homens. Sexualidade Violência Manipulação não são temas, são a essência frequentemente ignorada da arquitectura, mesmo sendo conceitos gritantemente óbvios.
O modo como se cravam nos corpos sem que os corpos tenham disso consciência, explica a tendência para que Sexualidade Violência Manipulação sejam abordadas isoladamente, como se fossem realidades naturalmente distintas. A verdade (e esta é uma verdade indiscutível) é que são conceitos que, mais do que se tocarem, se atravessam e se confundem. São gestos que se torcem sobre os corpos, provavelmente fragmentos de corpos roubados.
Nesta dimensão maior do corpo surge o espaço. Para perceber o espaço, não como um falso vazio ou uma abstracção burocrática, há que entender o corpo e aquilo que o move. Há que perceber os estilhaços que nele se cravam, rasgando-lhe a pele.
[excerto de 3 Estilhaços Cravados No Teu Corpo, Prova Final de Licenciatura, orientada pelo arquitecto Jorge Figueira]

