25.3.04

LE VOYEUR

Da natureza dérmica da arquitectura, da sua condição primordial de abrigo, surgiram as noções de intimidade e de domesticidade, que ainda hoje se mantêm. A casa, o lar, ainda é o último reduto. Mas pode ser devassado, violado por olhares ou corpos estranhos. Tal como a pele pode ser rasgada. A intrusão é uma ideia latente na arquitectura. A intrusão do corpo no espaço. A intrusão na esfera da intimidade.

A vulnerabilidade (do interior de um corpo, do que é íntimo), pode não ser a palavra mais óbvia, mas é provavelmente a mais apropriada para nomear o que a arquitectura de Adolf Loos tem de mais essencial. A questão não surge em Loos apenas como uma preocupação consciente, mas também, de certo modo, como uma perversão onde o crime é induzido pelo próprio espaço. O observador, nos espaços de Loos, é sempre um voyeur ou o objecto que este controla com o olhar.



Para Loos, o exterior era apenas o invólucro, uma pele que protegia o valor interior. Daí o silêncio que as suas obras ofereciam à envolvente. Um silêncio que impossibilita qualquer comunicação com o interior, protegendo-o. A arquitectura de Loos insere-se naquilo que o próprio designou de arquitectura de máscara. Há uma face que encara o exterior e uma que encara o interior, ou seja, há uma máscara e uma estrutura que a suporta. É muito claro que um dos conceitos mais intensamente presentes nesta dicotomia é o limite. É essa fronteira entre interior e exterior que vai permitir a construção do íntimo. Loos: A casa não tem que dizer nada ao exterior; pelo contrário, toda a sua riqueza deve manifestar-se no interior (1). O exterior é apenas o invólucro, o verdadeiro valor está no interior.

Loos rejeitava o exterior como algo a ser observado. Não existem paisagens nas suas casas. Para si, uma janela era apenas uma fonte de luz. Frequentemente, Loos colocava um sofá junto de uma janela, de modo a que os ocupantes se posicionassem de costas, o que acontecia inclusivamente nas janelas viradas para outros espaços interiores, como sucede na zona sentada da sala de estar das senhoras na Casa Müller (Praga, 1930). As janelas eram geralmente opacas ou tapadas por cortinas translúcidas. A organização do espaço, e o modo como estava disposto o mobiliário fixo, dificultavam o acesso à janela. Todos os elementos se reuniam para concentrar o olhar e o corpo naquele espaço interior apenas. O olhar nunca era convidado a dirigir-se para o exterior.

Loos orgulhava-se do facto dos habitantes das suas casas não reconhecerem os seus espaços interiores pelas fotografias. Para Loos, era essa impossibilidade de fotografar um espaço que definia o que era ou não um interior. O interior devia ser um espaço íntimo, uma experiência sensual, e não uma fotografia numa revista. Esta separação rígida entre interior e exterior deriva simplesmente da noção de Loos de que há uma separação igualmente evidente entre o nosso ser íntimo e o nosso ser social. O silêncio das fachadas de Loos existe para proteger a intimidade da casa. Mais do que a fachada, é o seu silêncio, a máscara.

[ para ler o texto integral entrar aqui ]


1. Adolf Loos citado por Beatriz Colomina in COLOMINA, Beatriz - Privacy And Publicity: Modern Architecture As Mass Media, The MIT Press (1998): The house does not have to tell anything to the exterior; instead, all its richness must be manifest in the interior.
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10.3.04

WONDERLAND



Das duas uma: ou o poço era realmente muito fundo, ou ela estava a cair muito devagar, pois enquanto descia teve tempo de sobra para olhar em redor, e interrogar-se sobre o que ia acontecer a seguir.

Lewis Carroll, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas


I

Primeiro, abriu-se uma porta.
Depois, descobriu-se um mundo.
Virtual.

A Internet é a porta e a queda para uma dimensão onde a realidade pode ser um excesso ou um mero ingrediente. Pode até ser esquecida como a conhecemos. A melhor descrição desse mundo virtual não envolve computadores e data de 1886. O País das Maravilhas, a dimensão surrealista que Lewis Carroll ofereceu a Alice, é a melhor das comparações. No deslumbre, na estupidez, na imensidão, na surpresa, no descontrole, nas mensagens de erro. Nos outros.

As criaturas que Alice conheceu nas suas aventuras não eram assim tão estranhas. Todos as conhecemos. O País das Maravilhas é a sociedade cortada aos pedaços e montada de novo. Mas não necessariamente pela ordem original… Hoje, neste preciso momento, essa realidade retalhada joga-se no ecrã mais próximo.


II

Blog é um fragmento de weblog. Um blog é um fragmento de alguém. A blogosfera é uma soma de fragmentos com resultado incerto.


III

Antes do romance: um blog é apenas uma web page. Pode ser uma página pessoal, de (des)afectos. Pode ter a frieza da seriedade. É suposto ser construída aos pedaços, um por cada dia. A palavra domina, mas há quem arrisque a imagem. Nunca se chega ao produto final. Há sempre o dia seguinte. Ou não. Há quem desista. Como cá fora, todos os dias nasce e morre gente. A diferença está no poder de escolha.

Um blog começa sempre por ser uma solidão. A sociedade é o meio esquizofrénico que resolve essa dor. Também aqui. Um blog pode ser uma página mas tem mais do que duas dimensões. É um lugar dentro de um lugar imenso, uma teia em permanente construção, em que cada um pode ser a aranha.

A blogosfera é uma réplica barata da sociedade. É muito parecida com o turbilhão à nossa volta. Mas. Tem mais variedade que num bazar chinês. Mais lixo que na nossa televisão. Mais qualidade que numa boa revista literária. Tem mais. É um excesso. É a liberdade dos pobrezinhos. Dos que queremos dizer fazer o que nos apetece. Dos que não queremos dizer nada. É mais uma existência.

Uma verdade de rodapé: a blogosfera deste país reflecte o seu tamanho: é pequenina. O que facilmente se esquece, tal a sua efervescência. Há sempre lugar para mais alguém. A primeira lição que se aprende é que há uma comunidade. Diferente, mas nem tanto. Não existem títulos nem idades. Existem amizades e conflitos. Existem a partilha e o roubo. Existem e inexistem escrúpulos. Debates com insultos e elogios. Sorrisos, beijos e abraços trocados ao segundo e-mail.

Cada um pode ser o que quiser: dar-se ou inventar-se. Pode-se aprender e desaprender à velocidade que se quiser. Debater sem hierarquias. Este lugar onde poucos conhecem o rosto de quem lêem, é um lugar de transparência. Há quem queira ser mais uma ovelha tresmalhada e há quem pedinche para ser aceite, visitado, referenciado. Há quem não saiba muito bem o que por lá anda a fazer. É tudo muito óbvio, mesmo quando pouco tem a ver com as vidas reais dos que por aqui se passeiam.

Entretanto: como Alice, vamos explorando o desconhecido, abrindo portas, escolhendo, arriscando. Vamo-nos cruzando com palavras nunca lidas, com frases batidas, com perguntas idiotas e pertinentes que nos param o olhar. Há aí uma certa prisão. Uma teia que nos vai enredando, a que vamos voltando. Há um vício que se instala nos dedos que se instalam nas teclas. As palavras que se escrevem se apagam se lêem. Vamos espiando outros que nos entregam as suas realidades ou as suas ficções, as suas verdades e os seus enganos. Há um voyeurismo permitido, desejado e sem sentimentos de culpa.

A blogosfera tem tudo para ser a pulga atrás da orelha dos monopólios do saber, dos mesmos de sempre que nos vão diariamente benzendo com as suas opiniões absolutas. Aqui, os nomes variam. Aqui, descobrem-se talentos anónimos e excelências até aí desconhecidas. Aqui, podemos (acreditar que podemos) agir.


[publicado em "NU #17: Revolução Digital", NUDA (2004)]
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