LE VOYEUR
Da natureza dérmica da arquitectura, da sua condição primordial de abrigo, surgiram as noções de intimidade e de domesticidade, que ainda hoje se mantêm. A casa, o lar, ainda é o último reduto. Mas pode ser devassado, violado por olhares ou corpos estranhos. Tal como a pele pode ser rasgada. A intrusão é uma ideia latente na arquitectura. A intrusão do corpo no espaço. A intrusão na esfera da intimidade.
A vulnerabilidade (do interior de um corpo, do que é íntimo), pode não ser a palavra mais óbvia, mas é provavelmente a mais apropriada para nomear o que a arquitectura de Adolf Loos tem de mais essencial. A questão não surge em Loos apenas como uma preocupação consciente, mas também, de certo modo, como uma perversão onde o crime é induzido pelo próprio espaço. O observador, nos espaços de Loos, é sempre um voyeur ou o objecto que este controla com o olhar.

Para Loos, o exterior era apenas o invólucro, uma pele que protegia o valor interior. Daí o silêncio que as suas obras ofereciam à envolvente. Um silêncio que impossibilita qualquer comunicação com o interior, protegendo-o. A arquitectura de Loos insere-se naquilo que o próprio designou de arquitectura de máscara. Há uma face que encara o exterior e uma que encara o interior, ou seja, há uma máscara e uma estrutura que a suporta. É muito claro que um dos conceitos mais intensamente presentes nesta dicotomia é o limite. É essa fronteira entre interior e exterior que vai permitir a construção do íntimo. Loos: A casa não tem que dizer nada ao exterior; pelo contrário, toda a sua riqueza deve manifestar-se no interior (1). O exterior é apenas o invólucro, o verdadeiro valor está no interior.
Loos rejeitava o exterior como algo a ser observado. Não existem paisagens nas suas casas. Para si, uma janela era apenas uma fonte de luz. Frequentemente, Loos colocava um sofá junto de uma janela, de modo a que os ocupantes se posicionassem de costas, o que acontecia inclusivamente nas janelas viradas para outros espaços interiores, como sucede na zona sentada da sala de estar das senhoras na Casa Müller (Praga, 1930). As janelas eram geralmente opacas ou tapadas por cortinas translúcidas. A organização do espaço, e o modo como estava disposto o mobiliário fixo, dificultavam o acesso à janela. Todos os elementos se reuniam para concentrar o olhar e o corpo naquele espaço interior apenas. O olhar nunca era convidado a dirigir-se para o exterior.
Loos orgulhava-se do facto dos habitantes das suas casas não reconhecerem os seus espaços interiores pelas fotografias. Para Loos, era essa impossibilidade de fotografar um espaço que definia o que era ou não um interior. O interior devia ser um espaço íntimo, uma experiência sensual, e não uma fotografia numa revista. Esta separação rígida entre interior e exterior deriva simplesmente da noção de Loos de que há uma separação igualmente evidente entre o nosso ser íntimo e o nosso ser social. O silêncio das fachadas de Loos existe para proteger a intimidade da casa. Mais do que a fachada, é o seu silêncio, a máscara.
[ para ler o texto integral entrar aqui ]
1. Adolf Loos citado por Beatriz Colomina in COLOMINA, Beatriz - Privacy And Publicity: Modern Architecture As Mass Media, The MIT Press (1998): The house does not have to tell anything to the exterior; instead, all its richness must be manifest in the interior.
Da natureza dérmica da arquitectura, da sua condição primordial de abrigo, surgiram as noções de intimidade e de domesticidade, que ainda hoje se mantêm. A casa, o lar, ainda é o último reduto. Mas pode ser devassado, violado por olhares ou corpos estranhos. Tal como a pele pode ser rasgada. A intrusão é uma ideia latente na arquitectura. A intrusão do corpo no espaço. A intrusão na esfera da intimidade.
A vulnerabilidade (do interior de um corpo, do que é íntimo), pode não ser a palavra mais óbvia, mas é provavelmente a mais apropriada para nomear o que a arquitectura de Adolf Loos tem de mais essencial. A questão não surge em Loos apenas como uma preocupação consciente, mas também, de certo modo, como uma perversão onde o crime é induzido pelo próprio espaço. O observador, nos espaços de Loos, é sempre um voyeur ou o objecto que este controla com o olhar.

Para Loos, o exterior era apenas o invólucro, uma pele que protegia o valor interior. Daí o silêncio que as suas obras ofereciam à envolvente. Um silêncio que impossibilita qualquer comunicação com o interior, protegendo-o. A arquitectura de Loos insere-se naquilo que o próprio designou de arquitectura de máscara. Há uma face que encara o exterior e uma que encara o interior, ou seja, há uma máscara e uma estrutura que a suporta. É muito claro que um dos conceitos mais intensamente presentes nesta dicotomia é o limite. É essa fronteira entre interior e exterior que vai permitir a construção do íntimo. Loos: A casa não tem que dizer nada ao exterior; pelo contrário, toda a sua riqueza deve manifestar-se no interior (1). O exterior é apenas o invólucro, o verdadeiro valor está no interior.
Loos rejeitava o exterior como algo a ser observado. Não existem paisagens nas suas casas. Para si, uma janela era apenas uma fonte de luz. Frequentemente, Loos colocava um sofá junto de uma janela, de modo a que os ocupantes se posicionassem de costas, o que acontecia inclusivamente nas janelas viradas para outros espaços interiores, como sucede na zona sentada da sala de estar das senhoras na Casa Müller (Praga, 1930). As janelas eram geralmente opacas ou tapadas por cortinas translúcidas. A organização do espaço, e o modo como estava disposto o mobiliário fixo, dificultavam o acesso à janela. Todos os elementos se reuniam para concentrar o olhar e o corpo naquele espaço interior apenas. O olhar nunca era convidado a dirigir-se para o exterior.
Loos orgulhava-se do facto dos habitantes das suas casas não reconhecerem os seus espaços interiores pelas fotografias. Para Loos, era essa impossibilidade de fotografar um espaço que definia o que era ou não um interior. O interior devia ser um espaço íntimo, uma experiência sensual, e não uma fotografia numa revista. Esta separação rígida entre interior e exterior deriva simplesmente da noção de Loos de que há uma separação igualmente evidente entre o nosso ser íntimo e o nosso ser social. O silêncio das fachadas de Loos existe para proteger a intimidade da casa. Mais do que a fachada, é o seu silêncio, a máscara.
[ para ler o texto integral entrar aqui ]
1. Adolf Loos citado por Beatriz Colomina in COLOMINA, Beatriz - Privacy And Publicity: Modern Architecture As Mass Media, The MIT Press (1998): The house does not have to tell anything to the exterior; instead, all its richness must be manifest in the interior.


