LE MANIPULATEUR
Le Corbusier, o arquitecto mais determinante da arquitectura contemporânea, foi um exímio manipulador e cada gesto seu pressupunha um determinado olhar ou movimento do observador. Para Le Corbusier era tudo uma questão visual. Segundo as suas palavras, as diversas vistas, a luz, as cores e os acontecimentos arquitectónicos definem a experiência espacial. O olhar moderno é um olhar em perpétuo movimento, sem um ponto de vista fixo. A arquitectura moderna é uma arquitectura de eventos. O espaço moderno não é definido por paredes, agora desmaterializadas, mas por imagens. Estar dentro deste espaço é ver; estar fora é ser visto, é fazer parte da imagem.

Entras: o 'espectáculo' arquitectónico oferece-se ao 'olhar'; percorres um itinerário e as 'vistas' desenvolvem-se com grande variedade; jogas com o fluxo de 'luz' que ilumina as paredes ou cria 'meias-luzes'. Grandes 'janelas' abrem 'vistas' para o exterior onde encontras novamente a unidade arquitectónica. No interior, as primeiras tentativas de policromia... permitem a 'camouflage architectural', isto é, a afirmação de certos volumes ou, pelo contrário, a sua atenuação. Aqui, renascidos para os nossos 'olhos modernos', estão eventos arquitectónicos históricos: pilotis, a 'fenêtre en longueur', a cobertura plana e a fachada de vidro (1).
Beatriz Colomina, em Privacy And Publicity, sustenta a tese de que a arquitectura moderna só se tornou moderna quando se ligou aos media. Mais do que isso, a arquitectura moderna pode pensar-se como media, como sistema de representação. Como escreve Roland Barthes: A era da fotografia corresponde precisamente à irrupção do privado como público, ou melhor, à criação de um novo valor social, que é a publicidade do privado: o privado é consumido como tal, publicamente (as agressões incessantes da imprensa contra a privacidade das estrelas, e as dificuldades crescentes da legislação para as controlar, testemunham este movimento). O privado transformou-se em 'merchandise' consumível. Talvez isso explique porque Baudelaire escreve: 'Os teus olhos iluminam-se como montras de lojas (2).
Le Corbusier confirma as palavras de Walter Benjamin, quando este escreve: Qualquer um [pode] observar quão mais facilmente... a arquitectura pode ser apreendida nas fotografias do que na realidade (3). Certamente com alguma ironia, Le Corbusier não hesita em admitir que o efeito da fotografia é sempre distorcido e ofensivo para os olhos de quem viu os originais (4), ao mesmo tempo que aproveita descontraidamente esse recurso. Por outro lado, talvez em jeito de justificação, acrescenta que toda a construção é máscara e ilusão (5). Le Corbusier utilizou frequentemente estas palavras no seu sentido mais literal.
O modo como a fotografia ignora o lugar, apreendendo apenas os fragmentos, retirando-os do seu contexto, é para Le Corbusier uma arma. Era essa falha da fotografia em representar verdadeiramente o espaço que fazia Loos repudiá-la. Mas a consciência dessa falha é precisamente o que permite a Le Corbusier jogar com a imagem, manipulando-a e, assim, manipulando o observador, levá-lo à leitura desejada pelo arquitecto. Tudo assentava numa escolha: o que evidenciar, o que ocultar, o que acrescentar.
1. Le Corbusier citado por Beatriz Colomina, Privacy And Publicity: Modern Architecture As Mass Media, The MIT Press (1998): You enter: the architectural 'spectacle' at once offers itself to the 'eye'; you follow an itinerary and the 'views' develop with great variety; you play with the flood of 'light' iluminating the walls or creating 'half-lights'. Large 'windows' open up 'views' on the exterior where you find again the architectural unity. In the interior the first attempts at policromy... allow the camouflage architectural, this is, the affirmation of certain volumes or, the contrary, their effacement. Here, reborn for our 'modern eyes', are historic architectural events: pilotis, the horizontal window, the roof garden, the glass façade.
2. Roland Barthes citado por Beatriz Colomina, ibid.: The age of photography corresponds precisely to the irruption of the private into the public, or rather, to the creation of a new social value, which is the publicity of the private: the private is consumed as such, publicly (the incessant agressions of the press against the privacy of the star and the growing difficulties of legislation to govern them testify to this movement). The private has become consumable merchandise. Maybe that explains why Baudelaire writes: 'Your eyes lit up like shop windows'.
3. Walter Benjamin citado por Beatriz Colomina, ibid.: Anyone [can] observe how much more easily... architecture can be grasped in photographs then in reality.
4. Le Corbusier citado por Beatriz Colomina, ibid.: the effect of photography is always distorted and offensive to the eyes of those who have seen the originals.
5. id., ibid,: All the construction is masking and trickery.
Le Corbusier, o arquitecto mais determinante da arquitectura contemporânea, foi um exímio manipulador e cada gesto seu pressupunha um determinado olhar ou movimento do observador. Para Le Corbusier era tudo uma questão visual. Segundo as suas palavras, as diversas vistas, a luz, as cores e os acontecimentos arquitectónicos definem a experiência espacial. O olhar moderno é um olhar em perpétuo movimento, sem um ponto de vista fixo. A arquitectura moderna é uma arquitectura de eventos. O espaço moderno não é definido por paredes, agora desmaterializadas, mas por imagens. Estar dentro deste espaço é ver; estar fora é ser visto, é fazer parte da imagem.

Entras: o 'espectáculo' arquitectónico oferece-se ao 'olhar'; percorres um itinerário e as 'vistas' desenvolvem-se com grande variedade; jogas com o fluxo de 'luz' que ilumina as paredes ou cria 'meias-luzes'. Grandes 'janelas' abrem 'vistas' para o exterior onde encontras novamente a unidade arquitectónica. No interior, as primeiras tentativas de policromia... permitem a 'camouflage architectural', isto é, a afirmação de certos volumes ou, pelo contrário, a sua atenuação. Aqui, renascidos para os nossos 'olhos modernos', estão eventos arquitectónicos históricos: pilotis, a 'fenêtre en longueur', a cobertura plana e a fachada de vidro (1).
Beatriz Colomina, em Privacy And Publicity, sustenta a tese de que a arquitectura moderna só se tornou moderna quando se ligou aos media. Mais do que isso, a arquitectura moderna pode pensar-se como media, como sistema de representação. Como escreve Roland Barthes: A era da fotografia corresponde precisamente à irrupção do privado como público, ou melhor, à criação de um novo valor social, que é a publicidade do privado: o privado é consumido como tal, publicamente (as agressões incessantes da imprensa contra a privacidade das estrelas, e as dificuldades crescentes da legislação para as controlar, testemunham este movimento). O privado transformou-se em 'merchandise' consumível. Talvez isso explique porque Baudelaire escreve: 'Os teus olhos iluminam-se como montras de lojas (2).
Le Corbusier confirma as palavras de Walter Benjamin, quando este escreve: Qualquer um [pode] observar quão mais facilmente... a arquitectura pode ser apreendida nas fotografias do que na realidade (3). Certamente com alguma ironia, Le Corbusier não hesita em admitir que o efeito da fotografia é sempre distorcido e ofensivo para os olhos de quem viu os originais (4), ao mesmo tempo que aproveita descontraidamente esse recurso. Por outro lado, talvez em jeito de justificação, acrescenta que toda a construção é máscara e ilusão (5). Le Corbusier utilizou frequentemente estas palavras no seu sentido mais literal.
O modo como a fotografia ignora o lugar, apreendendo apenas os fragmentos, retirando-os do seu contexto, é para Le Corbusier uma arma. Era essa falha da fotografia em representar verdadeiramente o espaço que fazia Loos repudiá-la. Mas a consciência dessa falha é precisamente o que permite a Le Corbusier jogar com a imagem, manipulando-a e, assim, manipulando o observador, levá-lo à leitura desejada pelo arquitecto. Tudo assentava numa escolha: o que evidenciar, o que ocultar, o que acrescentar.
1. Le Corbusier citado por Beatriz Colomina, Privacy And Publicity: Modern Architecture As Mass Media, The MIT Press (1998): You enter: the architectural 'spectacle' at once offers itself to the 'eye'; you follow an itinerary and the 'views' develop with great variety; you play with the flood of 'light' iluminating the walls or creating 'half-lights'. Large 'windows' open up 'views' on the exterior where you find again the architectural unity. In the interior the first attempts at policromy... allow the camouflage architectural, this is, the affirmation of certain volumes or, the contrary, their effacement. Here, reborn for our 'modern eyes', are historic architectural events: pilotis, the horizontal window, the roof garden, the glass façade.
2. Roland Barthes citado por Beatriz Colomina, ibid.: The age of photography corresponds precisely to the irruption of the private into the public, or rather, to the creation of a new social value, which is the publicity of the private: the private is consumed as such, publicly (the incessant agressions of the press against the privacy of the star and the growing difficulties of legislation to govern them testify to this movement). The private has become consumable merchandise. Maybe that explains why Baudelaire writes: 'Your eyes lit up like shop windows'.
3. Walter Benjamin citado por Beatriz Colomina, ibid.: Anyone [can] observe how much more easily... architecture can be grasped in photographs then in reality.
4. Le Corbusier citado por Beatriz Colomina, ibid.: the effect of photography is always distorted and offensive to the eyes of those who have seen the originals.
5. id., ibid,: All the construction is masking and trickery.

