CAMILO REBELO E PEDRO TIAGO PIMENTEL
MUSEU DE ARTE E ARQUEOLOGIA DO VALE DO CÔA

O verdadeiro início foi um acidente. O Vale do Côa poderia ser hoje um lugar submerso. Mas descobriram-se gravuras pré-históricas no local e a barragem projectada para o vale, apesar de muita polémica, nunca chegou a sair do papel. Restou um lindíssimo lugar e um passado longínquo a preservar. O Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa vai ser o elemento mais visível do complexo arqueológico entretanto criado. Os autores do projecto vencedor do concurso internacional são dois jovens arquitectos portugueses, Camilo Rebelo e Pedro Tiago Pimentel, no que foi um resultado tão surpreendente como refrescante.
O forte carácter objectual do edifício é evidente ao primeiro contacto com qualquer imagem do museu. A primeira leitura é a de um grande monólito sobre a paisagem, nela se fundindo. E é precisamente essa relação com a paisagem a primeira linha de acção. Será abusivo falar de land art mas há, de facto, uma simbiose quase perfeita entre o edifício, um bloco de xisto e betão, e o terreno de topografia irregular. (O quase é mais uma questão de realismo do que uma evidência.)
O edifício poderia ser um gesto brutal, de tão afirmativo na paisagem natural, mas relaciona-se com ela numa relação de estreita complementaridade, resolvendo logo aí o objectivo programático do edifício ser um museu daquele lugar mais do que de artefactos. O falso paradoxo é a opção por um bloco compacto, apenas pontualmente rasgado por estreitas aberturas, pesar menos na paisagem do que pesaria a opção por um edifício desmaterializado por fragmentação e utilização de materiais leves.
Se a arquitectura reinventa sempre o contexto em que se insere, neste caso o museu criado por Camilo Rebelo e Pedro Tiago Pimentel reinventa o contexto reforçando a sua natureza. Como uma rocha incrustada na encosta, o museu actua como uma plataforma panorâmica através da sua cobertura, que funciona como espaço de chegada e prolonga o terreno até se debruçar sobre a paisagem imensa dos montes e vales do rio Douro. A sua forma triangular, lapidada por uma geometrização abstracta da topografia, reforça esse sentido de abertura ao horizonte.

Tudo está claramente definido, sem possibilidade de equívocos: a implantação do edifício, a organização dos seus espaços. Sem possibilidade de equívocos, o que não significa que não haja espaço para a surpresa. A verdade é que, por muito minimal que possa parecer o edifício, a sua complexidade não permite que o visitante entenda de imediato aquele corpo. Em vez disso, vai-se apropriando lentamente, espaço a espaço. A ideia de percurso é, aliás, uma das chaves do projecto, tanto na relação do edifício com o lugar como na configuração dos espaços interiores. À medida que o observador se aproxima, a imagem do objecto perdido na paisagem, ao longe, irá sendo substituída pela de um corpo habitável.
Por outro lado, o gesto que organiza todo o edifício é a uma rampa que, começando no espaço exterior de chegada, vai rompendo a massa até ao seu interior, criando o espaço do lobby, descendo depois até às salas de exposição. Num acto contínuo, este percurso conduz lentamente o observador da luz à escuridão, da imensidão à clausura, como se entrássemos numa gruta. A comparação não é gratuita. Os espaços revestidos a xisto, escurecidos, iluminados pontualmente por aberturas zenitais e frestas nas paredes, são tratados de um modo cenográfico, ajudando a envolver o visitante num imaginário primitivo.
A força do projecto está na sua depuração, clareza programática e forte plasticidade, de tal modo que se torna fácil escrever por antecipação os espaços na penumbra, o corpo de betão e xisto incrustado na paisagem, moldado pela paisagem, entregando-se-lhe.
[publicado em "A10 #5" (2005)]
MUSEU DE ARTE E ARQUEOLOGIA DO VALE DO CÔA

O verdadeiro início foi um acidente. O Vale do Côa poderia ser hoje um lugar submerso. Mas descobriram-se gravuras pré-históricas no local e a barragem projectada para o vale, apesar de muita polémica, nunca chegou a sair do papel. Restou um lindíssimo lugar e um passado longínquo a preservar. O Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa vai ser o elemento mais visível do complexo arqueológico entretanto criado. Os autores do projecto vencedor do concurso internacional são dois jovens arquitectos portugueses, Camilo Rebelo e Pedro Tiago Pimentel, no que foi um resultado tão surpreendente como refrescante.
O forte carácter objectual do edifício é evidente ao primeiro contacto com qualquer imagem do museu. A primeira leitura é a de um grande monólito sobre a paisagem, nela se fundindo. E é precisamente essa relação com a paisagem a primeira linha de acção. Será abusivo falar de land art mas há, de facto, uma simbiose quase perfeita entre o edifício, um bloco de xisto e betão, e o terreno de topografia irregular. (O quase é mais uma questão de realismo do que uma evidência.)
O edifício poderia ser um gesto brutal, de tão afirmativo na paisagem natural, mas relaciona-se com ela numa relação de estreita complementaridade, resolvendo logo aí o objectivo programático do edifício ser um museu daquele lugar mais do que de artefactos. O falso paradoxo é a opção por um bloco compacto, apenas pontualmente rasgado por estreitas aberturas, pesar menos na paisagem do que pesaria a opção por um edifício desmaterializado por fragmentação e utilização de materiais leves.
Se a arquitectura reinventa sempre o contexto em que se insere, neste caso o museu criado por Camilo Rebelo e Pedro Tiago Pimentel reinventa o contexto reforçando a sua natureza. Como uma rocha incrustada na encosta, o museu actua como uma plataforma panorâmica através da sua cobertura, que funciona como espaço de chegada e prolonga o terreno até se debruçar sobre a paisagem imensa dos montes e vales do rio Douro. A sua forma triangular, lapidada por uma geometrização abstracta da topografia, reforça esse sentido de abertura ao horizonte.

Tudo está claramente definido, sem possibilidade de equívocos: a implantação do edifício, a organização dos seus espaços. Sem possibilidade de equívocos, o que não significa que não haja espaço para a surpresa. A verdade é que, por muito minimal que possa parecer o edifício, a sua complexidade não permite que o visitante entenda de imediato aquele corpo. Em vez disso, vai-se apropriando lentamente, espaço a espaço. A ideia de percurso é, aliás, uma das chaves do projecto, tanto na relação do edifício com o lugar como na configuração dos espaços interiores. À medida que o observador se aproxima, a imagem do objecto perdido na paisagem, ao longe, irá sendo substituída pela de um corpo habitável.
Por outro lado, o gesto que organiza todo o edifício é a uma rampa que, começando no espaço exterior de chegada, vai rompendo a massa até ao seu interior, criando o espaço do lobby, descendo depois até às salas de exposição. Num acto contínuo, este percurso conduz lentamente o observador da luz à escuridão, da imensidão à clausura, como se entrássemos numa gruta. A comparação não é gratuita. Os espaços revestidos a xisto, escurecidos, iluminados pontualmente por aberturas zenitais e frestas nas paredes, são tratados de um modo cenográfico, ajudando a envolver o visitante num imaginário primitivo.
A força do projecto está na sua depuração, clareza programática e forte plasticidade, de tal modo que se torna fácil escrever por antecipação os espaços na penumbra, o corpo de betão e xisto incrustado na paisagem, moldado pela paisagem, entregando-se-lhe.
[publicado em "A10 #5" (2005)]


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