21.11.05

O DESEJO FILMADO MUDO
APONTAMENTOS SOBRE O OLHAR DE WONG KAR-WAI


Wong Kar-Wai é um realizador de Hong-Kong, o que nos diz muito pouco. Wong Kar-Wai pode ser o maior cineasta vivo, e essa suposição discutível diz-nos um pouco mais. Por esta altura, os seus filmes mais conhecidos serão "2046" (2004) e "Disponível Para Amar / In The Mood For Love" (2000). Mas o culto começou em "Chungking Express" (1994). Provavelmente, todas as frases feitas sobre Wong Kar-Wai são verdadeiras, porque o exagero é difícil. A primeira de todas dirá algo sobre os seus filmes serem um deslumbramento visual – e é verdade que as imagens que Wong e o seu director de fotografia Christopher Doyle têm vindo a criar são asfixiantes. A segunda frase feita deverá ser sobre o lendário perfeccionismo de Wong – e é verdade que ele filma e refilma e hesita e corta e foi por isso que "2046", por exemplo, demorou quatro anos incessantes de trabalho. Isto pode dizer brevemente quem é Wong Kar-Wai. Mas o que verdadeiramente interessa é saber o que olham os seus olhos. E como.



Desejo é uma das palavras-chave em Wong Kar-Wai. A outra é desencontro. No cinema de Wong Kar-Wai, o que se ouve resume-se assim: a música é uma personagem, as palavras sucedem-se aparentemente banais mas são como poemas e o desejo é sempre mudo. Em momento algum se ouve uma personagem confessar a outra o seu desejo. As poucas confissões são-nos ditas em voz off e nunca são lineares. Cada personagem de Wong tem um mundo próprio mas, paradoxalmente, são todas vulneráveis às circunstâncias. As personagens de Wong vão encontrando o amor mas são sempre inábeis, mesmo quando parecem fatais. A cidade é a personagem quase invisível mas permanente, o mecanismo que permite todos os (des)encontros. Mas o que importa, o que marca, é o desejo. O desejo é uma questão de distância. E Wong enfatiza essa certeza em cada gesto de cada personagem. O modo como Wong filma torna o desejo palpável, de tão denso. Em nenhum caso é mais evidente do que em "Disponível Para Amar". As imagens de "Disponível Para Amar" deslizam. Mas os gestos das personagens são contidos, carregam toda a consciência de um desejo reprimido. Não há uma declaração de amor. Não há um único beijo. A linguagem é meramente corporal. A história – e é a história desse desejo – concentra-se nessa gestão insuportável de distâncias entre duas pessoas muito próximas mas irremediavelmente afastadas.

O que Wong Kar-Wai filma são os estilhaços. Depois acelera-os, abranda-os, imobiliza-os, muda-lhes a cor e a temperatura e vai compondo-os como peças de um puzzle de resultado incerto. Até que digam exactamente o que pretende. Mas o que pretende nunca é uma afirmação absoluta. O processo de Wong é caótico. Nunca existe um plano prévio exacto, apenas algumas intuições, histórias fragmentadas e a vontade de trabalhar com certos actores (e eles não falham e Wong tem tendência a repeti-los: Tony Leung, Maggie Cheung, Faye Wong, Gong Li, Leslie Cheung, Takeshi Kaneshiro…). O filme vai sendo rodado de improviso, com os actores a serem os catalizadores das ideias soltas de Wong. Todos os filmes de Wong são inacabados, dê-se à palavra o sentido que se der. O perfeccionista Wong Kar-Wai pára; mas não termina. Sempre que considerou fechar a narrativa de um filme, recuou. Em "Chungking Express" existem duas histórias cuja narrativa se intersecta pontualmente, aparentemente sem se influenciarem. Mas ambas repetem os mesmos conceitos. A primeira versão do final do filme colocava então as quatro personagens a convergirem para o mesmo terminal de aeroporto, unindo todas as pontas soltas da narrativa. Mas Wong optou por deixar suspenso qualquer desfecho em cada uma das histórias. Nenhum dos seus filmes tem verdadeiramente um fim. Um fim é uma certeza e os filmes de Wong terminam sempre com possibilidades. E é por isso, e pela música e pelas cores e principalmente pela densidade palpável do desejo, que se perpetuam na consciência dos espectadores muito após a saída da sala.



Wong nunca explica nada mas deixa uma pista por minuto. Cada frase, cada detalhe, cada um dos incontáveis e determinantes detalhes tem um significado para além do óbvio. A banalidade não tem nada de banal nos seus filmes. Nenhum elemento nos filmes de Wong tem significado isolado e daí a complexidade do seu cinema. A arbitrariedade do processo não tem qualquer equivalência no resultado. Mesmo a ambiguidade é determinada com exactidão. Qualquer filme de Wong Kar-Wai visto uma segunda vez é um novo filme. À primeira tentativa falha-se meia película. Mas a tentativa de interpretar um filme de Wong Kar-Wai começa por errar no propósito. Não se pode interpretar um filme seu, mas a obra como um todo. O tema é sempre o mesmo. As abordagens é que diferem. E Wong não hesita em explicitá-lo. Concebido inicialmente como a segunda parte de uma trilogia iniciada por "Chungking Express", "Anjos Caídos / Fallen Angels" (1995) está repleto de pequenos pormenores que nos remetem para o filme anterior. Do mesmo modo, todos os beijos em "2046" são uma tentativa falhada de concretizar um beijo que ficou por beijar em "Disponível Para Amar".

Um dos instrumentos utilizados por Wong é precisamente a repetição. Pode ser um lugar, um objecto, uma data, uma situação. E é sempre a música. Em "Chungking Express", uma música repete-se e repete-se, afirmando uma atmosfera. Em "2046" e "Disponível Para Amar", a música vai ainda mais longe e é muito claramente o compasso da acção, marcando as várias fases da história e a própria velocidade da câmara, por vezes lenta, quase imóvel. É uma questão de tempo e essa é uma das obsessões de Wong Kar-Wai. Em Wong há sempre uma noção premente do momento. Do momento exacto e irrepetível em que uma história se inicia ou se perde. "No nosso momento mais próximo estamos a apenas um centímetro de distância". As palavras são ditas pela personagem de Takeshi Kaneshiro, um dos polícias solitários de "Chungking Express", identificando o instante que determinou a sua paixão por uma mulher. De resto, estão sempre a aparecer relógios e datas insistentes, como o prazo de validade de um amor ditado por uma data numa lata de ananás, também em "Chungking Express". Mas mais importante que o tempo é a sua suspensão. É impossível ignorar as constantes mudanças de velocidade da história e das imagens. Num dos seus gestos mais reconhecíveis, utilizado em vários dos seus filmes, Wong sobrepõe os protagonistas em câmara lenta a uma massa indistinta de pessoas em movimento acelerado. Como se o tempo pudesse ser capturado, inutilmente capturado por alguns segundos apenas. Esses momentos, acompanhados por uma música repetida ou pelo mais absoluto silêncio, suspendem mais o espectador do que o filme. No meio daquele caleidoscópio de imagens ninguém conseguiria filmar assim a imobilidade. E depois também existem perseguições. Mas a maioria delas é feita sem qualquer movimento que não seja a respiração incerta. Há quem diga que podia viver dentro de algumas das cenas de Wong Kar-Wai. Mas claro que é exagero. A beleza sufoca.
2 comentários

2 Comments:

Blogger Marta said...

perfeito. este texto sufoca.nunca o olhar sobre um universo coincidiu tanto.

12:39 PM  
Blogger Vanessa said...

Boa noite (madrugada)
Estava a fazer uma pesquisa pelo nome do realizador e acabei por parar aqui. Fiquei admirada com o seu texto, está brilhante; convoca o essêncial em Wong Kar-Wai. Não sei se é cineasta, se é crítico de cinema, seja como for, parabéns, elaborou uma perfeita análise.

Vanessa

3:31 AM  

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