23.5.05

L I X O

"Art is anything you can get away with."

Woodsworth



Lixo. O que é que existe para perceber no lixo? O lixo é o desperdício, o excedente que recusamos, o objecto inútil ou errado, o detrito que queremos transformar em nada. O que é que existe para perceber no que queremos esquecer? Resposta em jeito de hipótese:

se eu disser: o lixo define mais uma sociedade do que a sua arte

terei que concluir: nada nos define mais do que aquilo que tentamos rejeitar

Para rejeitar, temos a lei. É a borracha de apagar das democracias. A lei determina o que é válido na sociedade. Tudo o resto é erro, não encaixa, tem que ser afastado, eliminado. É lixo.

(pausa)

Dizer que a cidade é feita de fluxos e de vivências é dizer o óbvio, é admitir que a cidade só existe na descontinuidade. A noção de totalidade da cidade é uma fantasia. Não há fotografia aérea que lhe valha. No fundo, a cidade é um sistema binário. Dois elementos apenas, o eu e o outro, numa possibilidade de combinação infinita. Não podemos escolher interferir com o outro porque não se escolhe uma inevitabilidade. Mas é-nos permitido escolher o modo.

(pausa)

Ainda não foi escrita, mas a palavra que serve de tema a este desconjunto de palavras é:

graffiti

O que interessa da biografia dos graffiti resume-se numa frase: era uma vez, há alguns milhares de anos, um desenho num sítio errado. Os graffiti aparecem com a definição de espaço público, transgredindo-o. O homem pré-histórico não criava graffiti porque ainda não tinha inventado a (i)legalidade.

O que se retém é o gesto sobre o espaço público. Dúvida: o que é espaço público? Até que ponto é do público um espaço onde lhe colocam restrições? Responder à pergunta é tão fácil como responder ao poeta: diz-nos: "só a palavra exacta é de utilidade pública. (1)" Mas: o que é a "palavra exacta"?

(pausa)

O mais pequeno gesto modifica o espaço, cada lugar, os olhares, as existências. Que dizer dos gestos que se nos colam nos olhos, que preenchem as paredes até não restar espaço para a indiferença? Saturando a parede, desrespeitando os lugares. Como é que os graffiti interferem com o espaço?

(Não esquecer: o espaço é o que o nosso corpo e o nosso olhar quiserem.)

Os graffiti têm a pequena importância de uma interferência, o que é natural, porque é de uma interferência que se trata. Cada parede indevidamente pintada é um episódio de descontinuidade na cidade, uma intrusão na equação, uma interrupção na ordem. A ordem pública é a antítese dos graffiti e o seu alvo. Como qualquer gesto anárquico, são uma expressão individualizada, despreocupada com a vontade do colectivo, ainda que se lhe dirijam. Com boas intenções ou apenas inconsequentes, têm a força de qualquer gesto imposto ao olhar.

(pausa)

"Mais cedo ou mais tarde será tarde demais." A frase está fixada na parede de uma indeterminada capital portuguesa. O desenho que a acompanha foi esquecido, a frase ainda ecoa. Não é de uma originalidade arrebatadora mas pode ser um bom subtítulo para este texto. Na sua imobilidade, transporta um sentido de urgência que faz um certo sentido. Não se pode ser lento quando se pretende que a própria identidade ou uma mensagem ao mundo passem por uma lata de spray. Seja arte ou crime, o que não é, não pode ser, é um gesto de lentidão.

A fuga é importante. A melhor maneira de preservar o desenho na parede é abandoná-lo sem contemplações. Deixar o nome do autor como um código, reivindicar cada desenho como um atentado. A comparação não é gratuita, mesmo que de mau gosto. Como no terrorismo, importa acima de tudo comprovar a existência. Estamos aqui. Esta é uma das mensagens. As outras variam. Qualquer bom policial diz-nos que importa conhecer a motivação do crime. Neste caso, a impossibilidade está na volatilidade do gesto.

Marcar uma parede não é necessariamente o mesmo que marcar uma posição. Mas pode ser uma tentativa. Pode dizer-se muito pouco ou nada num acto de mera ingenuidade. Para quem ainda não reparou, é a ingenuidade que faz girar o mundo. Não se perde nada em lutar contra o sistema, seja lá o que isso for, mesmo sabendo que o mais provável é que o sistema só mude por acidente.

(pausa)

Os graffiti só fazem sentido enquanto transgressão. Enquanto se conquistam as paredes. E quem conquista não pede licença. Os graffiti só fazem sentido enquanto gesto marginal, enquanto arriscam a própria eliminação, como qualquer outro detrito. Quando saem desse domínio passam a ser outra coisa. A legalidade torna a actividade morna, rouba-lhe os propósitos, mata-a por adormecimento.

Por exemplo. Dizer que Keith Haring e Jean-Michel Basquiat legitimaram os graffiti é uma ingénua parvoíce. O momento em que trocaram as ruas pelas galerias e foram reconhecidos como artistas foi o mesmo momento em que abandonaram os graffiti. Não interessa se os desenhos são os mesmos. Porque a essência dos graffiti não é o traço mas a parede. A escolha do suporte é a própria mensagem. É uma interrogação à sociedade. As respostas, já se sabe, estão erradas. Mas podem muito bem estar todas certas.

(pausa)

Geralmente, os graffiti são vistos como lixo e por isso gastam-se, todos os anos, em todo o mundo, milhares de milhões de euros para apagá-los e esquecê-los das superfícies públicas. Ao mesmo tempo, vão surgindo milhares de milhões de novos traços nas paredes. Bom esforço… Suponho que a ingenuidade pode ser jogada a dois.

Resumindo. A maioria dos graffiti são lixo, independentemente do significado que se atribua à palavra. Significa que num contexto urbano são da maior importância. Afinal, o lixo é o gesto mais urbano.

(pausa)

"E se isto não faz sentido, então compreendeste perfeitamente. (2)"


1. Eugénio de Andrade
2. Sarah Kane – "Falta" / "Crave" in KANE, Sarah – "Teatro Completo", Campo das Letras (2001)



[publicado em "NU #16: Marginalidades", NUDA (2004)]
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