30.6.05

CRISTINA GUEDES + FRANCISCO VIEIRA DE CAMPOS (entrevista)

por Pedro Jordão e Susana Faria


Quais são os gestos fundamentais nos Bares da Margem Fluvial de Vila Nova de Gaia?

Cristina Guedes_ Começamos por dois volumes. Um onde tentamos explorar um sistema construtivo muito leve e muito fino com base na carlinga dos aviões ou dos barcos, que é o volume de serviços. É onde estão as infra-estruturas mais caras e, no caso de uma cheia, pode eventualmente ser removido. É um pouco essa ideia. Aliás, a estrutura foi toda feita em estaleiro, tendo sido depois transportada para o local. Depois temos o outro edifício, que é o volume de estar, onde estão as mesas. O objectivo era que fosse um volume muito simples, quase como uma moldura sobre a paisagem. Portanto, um é o dobro do outro e no maior era importante vencer um grande vão sem pilares. Existe um módulo e o edifício tem o maior módulo possível que conseguimos obter na construção, de forma que também a laje fosse fina, já que é um vão de 18 metros de comprimento. Todo o exercício é também tornar abstracta esta moldura, abstracta no sentido de ter a mesma espessura a toda a volta, o que foi estudado no limite do mínimo, criando uma linguagem mais esbelta onde, ao mesmo tempo, coubessem todas as infra-estruturas, os ares-condicionados, a luz...

Francisco Vieira de Campos_ Aqui há sempre uma questão de águas, a água é o que define a espessura. Para além do vão, para além das condicionantes do concurso, deram-nos uma área restrita, na borda do rio. Nós tivemos que aliar isso à questão estrutural, que é a base. Parece tudo muito simples, mas é tudo muito complicado lá por dentro. O que acontece aqui é andarmos sempre nos limites. No fundo, é na cobertura que se define a altura do pavimento. Portanto, tinha que se fazer um esforço para conseguir a cobertura mínima

CG_ E este objecto também é, de algum modo, estranho ao lugar, porque são edifícios construídos em margens e as margens são sempre espaços públicos, espaços de ninguém, espaços de toda a gente, pelo que entendemos que, ao construir numa margem, o edifício não deve ter um carácter de construção perene, deve ser uma construção efémera. Até porque Portugal é o país em que as margens mais cedo foram reconhecidas como do domínio público. Os edifícios, os equipamentos, foram sempre entendidos como algo que não pertence ao lugar, e o facto de irmos buscar estas imagens abstractas tem a ver com essa intenção. De soltar-se do chão, de pousar. Até porque estes bares estão sempre a ser concessionados por pouco tempo, cinco, seis anos. Depois são retirados, desmontados, o que faz com que, desde o princípio, sejam projectos especiais. Isso também permite que aqueles regulamentos que obrigam ao cumprimento de certas normas, como ter 3 metros de pé direito, possam ser subvertidos. Então, o pé direito fez-se baixo, porque as pessoas estariam sentadas, o que é mais confortável, mais acolhedor e, ao mesmo tempo, não se torna uma barreira para a vista.

FVC_ Também vem muito da experiência do Café do Cais, que tem 2.40 metros, não os 3 habituais, senão tinha ficado um volume ao alto, em vez de ficar mais horizontal. O que nós tentámos foi criar um espaço que convidasse à sedução, ao espaço lúdico, às vistas... No fundo, andamos sempre nesses limites, a subverter esses limites. Houve uma altura em que começámos a questionar se esta testa aguentava com mais alguma altura, pelo que houve uma altura da execução em que estivemos a discutir centímetros. Parece ridículo, mas é uma questão de isto aguentar ou não a ideia. Até porque isto está tudo feito de uma forma modular...

CG_ ... que também viemos buscar aos elementos que estão pré-fabricados. Os foles são elementos que já existem, as chapas também. Temos então uma moldura sobre a paisagem, em que o vidro é simultaneamente um elemento reflectante e transparente.

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[publicado em "NU #6: Imagem", NUDA (2002)]
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27.6.05

NUDEZ

Como é que se despe um corpo?

Não precipites a resposta, não lances já as mãos inquietas sobre a roupa. Demora-te. Começa pelo princípio. Pergunta primeiro: o que é despir um corpo?

Libertá-lo do que lhe pesa.
Do que o esconde.
Expô-lo.
Mas principalmente:
procurar entender.
Ler. Para além da superfície.

Começar com a nudez. De qualquer modo, é sempre assim que se começa. Com o mundo a exercer pressão sobre a pele. Lembrando que viemos apenas ocupar mais uma porção de vazio. Mas. Os vazios não passam de pontos de partida. Sonhar é decretá-lo. É afirmar que há algo que falta. Foi por aí que começou a NU.

A nudez não se escreve. Mas quisemos tentar. A ingenuidade faz parte do jogo: as melhores palavras são sempre as que parecem inúteis, as que insistem no impossível. Porque são escritas contra o bom senso, querem ir além do aconselhável. Sabem que dificilmente serão verdadeiramente novas e que jamais conseguirão entender o todo. Esta última frase, obviamente, deverá ser apagada da memória após a sua leitura. O que interessa é esta falsa inocência.

A NU é uma revista pretensiosa. Colocou a fasquia demasiado alta, teve a insolência de quem não podia perder. Quis ser mais do que seria de esperar de uma revista de estudantes, transbordar desde o início os limites da escola, da pouca idade, pensar sem dispensar o atrevimento. Quis aprender onde outros têm a pretensão de ensinar.

A NU quis fazer escola. O que não significa escrever a escola. Tal como construir o corpo não significa desenhar o umbigo. Fazer escola é construir pelo menos mais dez centímetros de mundo com estes instrumentos que nos colocaram nas mãos. Tal como construir o corpo é relacioná-lo com o que o envolve. A NU é um corpo. Qualquer corpo é uma construção lenta. As dores de crescimento foram várias.

Como em qualquer projecto amoral, há uma moral da história: não aceitar cegamente a moral dos outros, construir a própria. Em Coimbra, no meio de uma cidade e de uma universidade cansadas de tanto suportarem o peso da história e das tradições, a NU rasgou um caminho. Teve a sorte de surgir num lugar que ainda hoje se inventa, sem o lastro de uma marca registada, de doutrinas ou pensamentos mais ou menos únicos. Procurar a máxima pluralidade era a única via disponível. Nos temas, nas abordagens, nas colaborações. Nomes, rostos, palavras, ideias. Diferentes.

A NU foi construída sem piloto automático. Obrigou-se a pensar em cada metro percorrido. O caminho teve então de ser escolhido, arriscado. É difícil classificá-la porque a NU é propositadamente vaga no posicionamento. É demasiado irrequieta para ter um ponto de vista. A NU teve sempre uma tendência canibal, tentando devorar com critério mas sem cerimónias o que de mais marginal a arquitectura ia exibindo. Não procurando as unanimidades mas os fragmentos, a miríade de ideias e opiniões. Antes o confronto do que a anestesia. A NU quis apenas ser um olhar diferente.

É nesse caleidoscópio de vontades e insanidades que se vão descobrindo os espaços em branco, a preencher. O espírito NU é esse: cobrir de palavras o corpo, tatuá-lo com as verdades do momento. Começar na margem, no limite, para ir conhecendo a essência. Desviar do caminho óbvio em direcção ao que nos escapa na distracção dos dias, arriscando a miragem, o engano. A arquitectura nos lugares mais (in)suspeitos.

Porque
A arquitectura é: entediante. Quando se imobiliza deslumbrada com o seu reflexo. A arquitectura é demasiado lenta para que a pensemos devagar.
A arquitectura é: apaixonante. Quando se deixa infectar, subverter. A arquitectura vive dessa promiscuidade com o mundo. O resto é construção.

A NU procura a subjectividade porque em arquitectura só ela é objectivamente útil. Importa menos afirmar do que interrogar. Importa discutir, mais do que descrever. A diversidade é o único meio de tentar tocar em todas as feridas, de chamar a dor que chama a atenção que chama o pensamento.

Pensar a arquitectura é abandonar a pretensão de alcançar a verdade. O que importa é deixarmos as impressões digitais no papel, a sujidade dos dedos transferindo-se para a folha quase branca, admitindo que o que é real não pode ser puro. Não pode ser verdadeiro. A verdade não passa de uma bola de espelhos. O que a NU tenta fazer é escrever alguns dos seus reflexos. A responsabilidade acaba aí. Só fornecemos o sal. Cada um lança-o depois onde quiser. Na boca ou nas chagas.

Nudez.

Revelar aos olhos e às mãos o que se esconde por detrás do artifício. Por detrás das roupas, das palavras. Por detrás do enfeite, do ilusório.
Iludir um pouco mais, iludir diferente.
Quebrar barreiras, anular a distância de segurança.
Resistir a desviar o olhar, a cobrir a nudez onde ela nos fere.


[publicado em "NU #18: Publicações", NUDA (2004)]
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23.6.05

JOÃO PEDRO SERÔDIO + ISABEL FURTADO (entrevista)

por Pedro Jordão e Carlos Guimarães


João Belo Rodeia descreveu a vossa arquitectura, na 2G consagrada à Arquitectura Portuguesa, como uma invulgar investigação sobre a natureza da ordem, materialidade e limites espaciais. Consideram-na uma boa definição da vossa obra?

João Pedro Serôdio_ Considero que é uma boa observação. Obviamente, isso tem a ver com alguns projectos em que exploramos, de facto, esses aspectos. Quando se refere aos limites, nós entendemo-lo como superfície, aquilo que define o momento em que se está dentro e se está fora. Quando se refere à questão da ordem, interpretamo-lo como uma procura ou um esforço pessoal no sentido de encontrar uma razão e fonte estrutural nos projectos.

Isabel Furtado_ É verdade que é uma preocupação nossa, quando estamos a projectar, conseguir uma ordem, seja dada pela ideia ou pelo método usado. Podemos não o atingir, mas achamos que é importante ter este princípio, regra ou ideia forte. Qualquer coisa que nos conduza nas diversas fases de projecto e nas várias escalas, e que dê a coerência necessária para que todas as peças se encaixem de uma forma lógica. Quer nas primeiras escalas, na ordem distributiva do programa, quer depois, nas fases de desenvolvimento e detalhe dos projectos, na escolha dos materiais e do sistema construtivo a utilizar, o objectivo é que se esteja a falar de uma mesma coisa.

[ para ler o texto integral entrar aqui ]


[publicado em "NU #10: Ismos", NUDA (2003)]
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